Sexta-feira, 30 de Maio de 2008

«Um Toque de Jazz» em Junho

 

Este mês Um Toque de Jazz regressa à apresentação de um novo ciclo de grandes concertos de jazz internacionais.

Com jazz para todos os gostos, a maior curiosidade vai para o dueto constituído por dois músicos franceses de orientações estéticas muito diferentes  – Michel Portal e Jacky Terrasson –  mas também para a recriação de repertórios de grandes mestres, como é o caso de Charles Mingus pelo grupo austríaco 11 Concert Band, de Duke Ellington e Billy Strayhorn pela nova Orquestra de Jazz da «Juventude Musical» da Croácia e de Don Cherry pelo octeto Karl Berger & Friends.
 
Potencialmente interessantes e tocando várias tendências do jazz actual serão, ainda, um concerto revelador do novo jazz russo, realizado em Moscovo, o jazz e a música improvisada electro-acústica do guitarrista norte-americano David Torn ou o novo sexteto I Visionari do pianista italiano Stefano Bollani.
 

 
Sábado, 30.05.08 – Hoje não haverá Um Toque de Jazz em virtude de uma transmissão directa de Barcelona (A Valquíria, de Richard Wagner). 
 
Domingo, 01.06.08 – O clarinetista Michel Portal e o pianista Jacky Terrasson (França) (na foto) no Festival de Jazz INNtöne (Diersbach, Áustria) em 26.05.07. Gravação Eurorádio.
 
Sábado, 07.06.08 – A 11 Concert Band (Áustria), com Peter Herbert (contrabaixo), Manfred Holzhacker e Lorenz Raab (trompetes), Rudolf Ruscher (trombone), Raoul Herget (tuba), Klaus Dick Bauer, Martin Fuss, Sigi Finkel e Thomas Kugi (saxofones), Robert M. Weiss (piano) e Walter Grassmann (bateria), toca repertório de Charles Mingus no Festival de Jazz INNtöne (Diersbach, Áustria) em 27.05.07. Gravação Eurorádio.
 
Domingo, 08.06.08 – Os trios de Nikolai Sidorenko e Alexei Chernakov e os sextetos de Peter Vostokov e Denis Eshkov: o novo jazz russo num concerto realizado no clube The 5th Label (Mosvoco), em 24.12.05. Gravação Eurorádio.
 
Sábado, 14.06.08 – A Orquestra de Jazz da «Juventude Musical» de Zagreb (Croácia) toca repertório de Duke Ellington e Billy Strayhorn no clube Tvornica (Zagreb), sob a direcção de Sigi Feigl, em 01.02.04. Gravação Eurorádio.
 
Domingo, 15.06.08 – A Orquestra de Jazz da «Juventude Musical» de Zagreb (Croácia) toca repertório do pianista norte-americano Jim McNeely (na foto), sob a direcção deste, nos Estúdios Zvonimir Baisic (Zagreb) em 06.05.07. Gravação Eurorádio.  
 
Sábado, 21.06.08 – A cantora sul-africana Sibongile Khumalo (na foto), com um quinteto constituído por Jack DeJohnette (bateria), Byron Wallen (trompete), Jason Yarde (sax-alto alto e soprano), Jerome Harris (contrabaixo, voz) e Danilo Perez (piano) no Festival de Jazz de Cully (Suíça) em 27.03.07. Gravação Eurorádio.
 
Domingo, 22.06.08 – Domingo, 22.06.08  – O Quarteto do guitarrista David Torn (EUA) (na foto, com Gerald Cleaver em vez de Tom Rainey) constituído por Tim Berne (sax-alto), Craig Taborn (Fender Rhodes e Hammond B3) e Gerald Cleaver (bateria) no Festival de Jazz de Saalfelden (Áustria) em 24.08.07.
 
Sábado, 28.06.08 – O sexteto I Visionari do pianista Stefano Bollani (Itália) (na foto) com Mirko Guerrini (saxofones, flauta), Nico Gori (saxofones, clarinete), Ferruccio Spinetti (contrabaixo) e Cristiano Calcagnile (bateria) nos Estúdios Rolf Liebermann da NDR (Hamburgo) em 20.04.07. Gravação Eurorádio.
 
Domingo, 29.06.08 – O octeto Karl Berger & Friends, com Graham Haynes (corneta), Carlos Ward (sax-alto), Peter Apfelbaum (sax-tenor, flauta), Bob Stewart (tuba), Mark Helias (contrabaixo), Tani Tabbal (bateria), Ingrid Sertso (voz) e Karl Berger (piano, vibrafone) toca obras de Don Cherry nos Estúdios Rolf Liebermann da NDR (Hamburgo) em 30.03.07. Gravação Eurorádio.
 

 

Um Toque de Jazz é transmitido aos sábados e domingos, das 23:05 às 24:00, na Antena 2, podendo ser ouvido em FM ou ainda aqui, via webcast. Após a sua transmissão, as emissões estão disponíveis, também via Internet, na página de arquivos multimédia da Antena 2.                                                                                                                                                        


 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 16:14
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Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

Discos em destaque

 

 


 

 


 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 14:24
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Domingo, 11 de Maio de 2008

Achados no baú (8)

 

Era ainda um tempo em que se realizava com regularidade, no Rivoli, o Festival de Jazz do Porto, organizado pela Culturporto, depois feita desaparecer pela gestão autárquica de Rui Rio, assim desaparecendo com ela também aquele evento jazzístico!

A edição de Novembro de 1999 foi uma das melhores a que me lembro de ter assistido (embora parcialmente) e dessa impressão dei então conta aos leitores do Diário de Notícias, quando o jazz tinha ainda cobertura regular naquele jornal...

Os tempos mudam, sem dúvida, mas este é um espaço livre, que só acaba quando eu assim o decidir, e por isso me apeteceu hoje recordar a saudável diversidade estética que então pude testemunhar.


 

Interessantes confrontos estéticos (1)

 
Há muito se sabia da sensibilidade musical do pianista Fred Hersch  (que inaugurou a segunda ronda do festival, a que pude assistir), recentemente reavivadas pelo seu último álbum  [1999]  Let Yourself Go, gravado em circunstâncias semelhantes.
 
Porventura menos arrebatador e intenso do que nessa outra actuação em verdadeiro «estado de graça», o recital da passada quinta-feira  [04.11.99]  não deixou de ser exemplar na tranquilidade e maturidade da invenção musical  (Tango Bittersuite ou Up In The Air), no bom gosto do repertório escolhido  (Whisper Not, You’re The Top), na recorrente presença de referências  (Bemsha Swing ou Evidence) e na qualidade de versões modelares, como a inteligente associação do tradicional Black is The Color of My Lover’s Eyes com a canção-tema de Spartacus ou até a recriação harmónica e o tempo sustentado de Mood Indigo, um encore sublime.
 
A noite de sábado começaria com a presença de um dos nossos mais fulgurantes pianistas actuais  – João Paulo Esteves da Silva –  que se apresentou em palco na companhia de Carlos Bica (na foto) e Peter Epstein e cujas peças vêm insistindo em sucessivas e deambulantes melopeias de uníssonos entre piano e saxofones.
 
Não é o curto espaço da recensão muito genérica de um evento musical com participações tão diversificadas que permite uma mais profunda análise da actual obra de João Paulo  – limitação aliada à circunstância  (ainda e sempre ponderável)  de se tratar de um músico português cujo real talento, em termos absolutos, suscitaria especiais cuidados de abordagem.
 
O facto é que, neste preciso contexto instrumental e criativo (…), parece cada vez mais evidente não pretender este pianista e compositor privilegiar uma perspectiva criativa puramente jazzística, muito mais se orientando para uma linguagem situada nas cercanias da multifacetada música étnica. O que é altamente respeitável, daí não vindo nenhum mal ao mundo!
 
Aliás, a inclusão no repertório dos líricos e belíssimos Durme Querido Hijico ou Aldeia são disso clara expressão, por exemplo através de um tratamento rítmico no qual mesmo as incidências de métricas irregulares ou derivações sincopadas se afastam claramente da rítmica do jazz.
 
Este  – ou melhor: a música improvisada incidental de construção em progresso, vagamente inspirada pelo jazz –  apenas foi aflorado no sexto tema  (ainda sem título), no qual funcionou em pleno a invenção colectiva. Mas até o brilhante Passos, com o seu constante ciclo de inesperadas modulações, ao deixar transparecer um tratamento inventivo do fado numa estratégia de curiosa analogia com o que Piazzola fez a partir do tango, está longe de se situar nos terrenos do jazz.
 
Num contraste natural, bastaria ouvir e viver os primeiros compassos do impetuoso e vibrante Mole People, que Julian Arguëlles escolheu para abrir a parte que lhe coube do mesmo concerto, para perceber que, independentemente do instrumentário concreto de tal ou tal grupo e para além de toda a discussão em curso quanto às questões da modernidade, da originalidade ou da inovação em jazz, há determinadas características essenciais que conferem a esta linguagem musical uma identidade própria;  e ao mesmo tempo determinam que tal ou tal execução seja ou não enquadrável, como um dado natural, no âmbito do jazz  – sob pena de não sabermos do que estamos a falar!
 
Sendo absurda tontearia exigir-se que todas essas características estejam presentes de forma obrigatória e simultânea nos vários caminhos da actual criação jazzística  (como se se tratasse de um burocrático caderno de encargos), resulta inevitável pensar-se nelas enquanto ligadas a uma pulsação específica, mesmo que não confinada aos velhos pressupostos do swing;  à especial articulação de um fraseado que, intuída automática e culturalmente, é causa e ao mesmo tempo efeito de uma diferente abordagem técnica dos instrumentos e do seu tratamento tímbrico;  e, como é natural, à presença mais ou menos ampla da improvisação.
 
Precisamente por isso, é neste octeto tão importante a forma como Martin France estabelece a infra-estrutura rítmica e como, a partir dela, contribui para a tensão ou distensão expressiva e emocional de tal ou tal peça, em moldes totalmente novos;  como a controlada modernidade de um Gerard Presencer  (trompete)  pode coexistir com o maior arrojo de Iain Dixon ou do próprio Arguëlles (clarinete e saxofones); ou como a forte matriz cultural e a fogosa individualidade de Mário Laginha  (pianista convidado)  [ver foto]  se não esbatem e antes contribuem para o enriquecimento do muito amplo e colectivo espectro estético deste grupo de excepção.
 
O fabuloso trabalho de composição e instrumentação de Ace of Trumps e, em contraste, o caos organizado de Coffee Diesel, aí ficaram a prová-lo  – numa linguagem estimulante e original que, sem recusar aqui e ali os seus sinais, jamais precisou de ficar refém, como se provou, dos modelos americanos do jazz.
        

(1) in Diário de Notícias, 10.11.99


 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 17:47
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Sexta-feira, 9 de Maio de 2008

Discos em destaque (alguns com atraso...)

 

 


 

 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 09:49
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Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

Concertos com dedicatória (2)

 

In My Mind: Monk at Town Hall, 1959
Jason Moran (piano), Jason Yarde (sax-alto), Denys Baptiste (sax-tenor), Byron Wallen (trompete), Fayez Virjii (trombone), Andy Grappy (tuba), Tarus Mateen (contrabaixo), Nasheet Waits (bateria)
Casa da Música, 29.04.08, 22 horas, Sala Suggia

Fotos: cortesia Casa da Música e © João Messias
 
Foi de rara sensibilidade, persuasão, inteligência e criatividade próxima do génio o extraordinário concerto que o pianista Jason Moran e seus companheiros de jornada nos ofertaram numa experiência única que constitui já um transcendente acontecimento da actual temporada portuguesa, mesmo que certamente considerados todos os géneros e domínios artísticos e culturais.
 
Tendo como móbil principal a invocação de um muito célebre concerto que o pianista e compositor Thelonius Monk realizou em 28 de Fevereiro de 1959 numa famosa sala de Nova Iorque  – então editado em disco pela independente Riverside com o título The Thelonius Monk Orchestra at Town Hall e hoje disponível em CD numa recente reedição da colecção Keepnews Collection já aqui referida –  a obra realizada na Casa da Música em estreia europeia absoluta representou, muito para além dessa referência já de si incontornável, uma fulgurante vivência musical e ainda uma interessantíssima experiência multimédia e audiovisual.
 
Um dos aspectos mais significativos do altíssimo sentido de responsabilidade com que desde logo Jason Moran avançou para este ambicioso projecto foi a postura de inabalável seriedade intelectual  – hoje rara –  com que se predispôs a transfigurar  (não o beliscando na sua força simbólica)  o objecto musical de que partiu.
 
Neste sentido e funcionando como um emissor central, Moran jamais procurou o maior denominador comum para uma mais fácil compreensão da música e dos seus envolventes, não hesitando em optar por uma abordagem ambiciosa e multifacetada dos significados desse repertório e desse concerto.
 
Ao utilizar uma panóplia de dispositivos musicais, audiovisuais e dramatúrgicos que se somavam e completavam uns aos outros, em termos de emissão  – e cujas potencialidades de recepção pressupunham/desafiavam sensibilidades vivificadoras e criativas, independentemente dos graus diferenciados de conhecimento por parte do espectador-receptor em relação ao objecto abordado –  Jason Moran também não se esquivou a que alguns desses sinais de identificação melhor pudessem porventura ser interiorizados por uma parcela relativamente minoritária de iniciados.
 
Eis a forma mais digna, nobre, democrática, revolucionária  (e ao mesmo tempo mais exigente, no plano conceptual)  de se homenagear um mestre, um repertório, uma época, um capítulo da arte do jazz. Dito de outro modo, evitando a banalização do lugar-comum, o facilitismo da cópia, a familiaridade excessiva, a acessibilidade preguiçosa, numa palavra:  ultrapassando a viciosa desconfiança face à intuitiva disponibilidade ou à esclarecida capacidade auditiva do espectador. Algo que um Wynton Marsalis, e outros com e por ele, jamais compreenderão.
 
Desde que, na simbólica abertura do concerto, sozinho frente ao piano e colocando os auscultadores nos ouvidos, Moran começou a interiorizar  [in his mind]  o som vindo da gravação original do próprio Monk, com ele «dialogando» de imediato na mesma linguagem ou depois avançando por outros caminhos em saudável «discussão» com o Mestre, logo se percebeu qual o puzzle que o ouvinte-espectador teria também de construir na sua mente.
 
Um pouco mais tarde, numa fabulosa e complexa versão de Little Rootie Tootie, ao «aproveitar» o inconfundível ritmo dos passos dançados por Monk  (e também ouvidos na banda sonora)  para sobre eles inventar a swingada linha melódica da introdução que sincronamente os seguia, Moran não fazia mais do que transpor para este contexto algo que já inventara para Ringing My Phone, peça construída sobre a fala de uma mulher turca ao telefone (!). [in The Bandwagon, Blue Note, 2003]
 
Do mesmo modo, o aproveitamento para essa mesma banda sonora das conversas de trabalho ou de bastidores entre Thelonius Monk e Hal Overton  (orquestrador do material temático para o concerto do Town Hall)  bem como das reflexões pessoais do próprio Moran acerca da revelação da música de Monk, decorrem em meio de um continuum musical produzido em palco com grande intensidade e diversidade, que não conhece pontos mortos ou de menor significado e no qual a valorização dos silêncios ou das pausas tem um peso e um valor dramatúrgico essenciais, como foi o caso do breve «virar de página» durante o qual os músicos abandonaram conjunturalmente a cena depois de um hino impressionante apenas tocado a cappella pelos metais.
 
[Sublinhe-se, por ser da maior justiça, o rigor e a cuidadosa adequação e verosimilhança da tradução portuguesa projectada no ecrã em acompanhamento dos vários textos e sons gravados. Também ela esteve bem «por dentro» do próprio jazz e, além do mais, facultou-nos uma imagem ainda mais perfeita dos perfis humanos e artísticos de Monk e de Moran]
 
Convém entretanto não esquecer, neste relato certamente empenhado e ainda marcado pela recordação das emoções vividas, essa componente não negligenciável do «enredo» que nessa noite se desenrolou perante todos nós e que  (está bem de ver)  é a própria música de Thelonius Monk, tão admiravelmente recriada por Jason Moran e seu pares.
 
Reunindo para esta digressão europeia o seu trio nova-iorquino Bandwagon a um quinteto de sopros constituído por alguma da nata do jazz afro-hindu-britânico com sede em Londres, Jason Moran demonstrou ser não apenas um dos mais importantes construtores do novo jazz afro-americano como, numa perspectiva mais ampla e apostando numa inusitada miscigenação de talentos e de sangues, um catalisador do carácter hoje universal do próprio jazz.
 
Diga-se então que, no plano musical, um dos pontos mais altos de todo o concerto começou por ser, logo na segunda peça, uma versão transfigurada e arrasadora de Friday The Thirteenth, na qual o minimalismo do tema foi explorado até à exaustão em várias vertentes, estando o obsessivo cromatismo descendente das harmonias sempre presente durante o solo vertiginoso de piano ou na intervenção «quadrada»  (à maneira de Brecht/Weill)  do quarteto a cappella formado por Jason Yarde com os três metais.
 
Depois, uma emocionante recriação de Monk’s Mood  (com o sensível trombone de Fayez Virjii em destaque)  serviu de pano de fundo à verbalização das próprias reflexões de Jason Moran sobre Thelonius Monk, sendo a «colagem» de ‘Round Midnight um verdadeiro achado.
 
Logo a seguir, This is My Story, This is My Song serviu para a engenhosa introdução  (em nova gravação de voz por Moran)  de uma narrativa que nos conduziu aos antepassados de Monk, às referências ao período esclavagista nos EUA, tudo terminando  (após citações dispersas de I Mean You)  no já referido e impressionante hino tocado pelos metais.
 
Representando um corte súbito, Little Rootie Tootie constituiria, então, o regresso ao móbil subjacente a este projecto  – a actuação da orquestra de Thelonius Monk no Town Hall –  com uma swingada versão da peça mais carismática daquele concerto e a reprodução-citação  (muito bem tocada e articulada)  do solo integral que Monk inventou na sua própria versão em trio e que Overton orquestrou para aquela ocasião. No trompete, foi Byron Wallen que desta vez esteve em primeiro plano.
 
E, enquanto a inclusão de Off Minor, em meio de uma improvisação aleatória e colectiva, servia de pano de fundo ao reforço simbólico e encenado da componente multimédia  – com a colocação de auscultadores por todos os músicos e a brevíssima utilização dos planos fixos de três pequenas câmaras em ângulos diferenciados –  o concerto terminaria, em palco, com uma impressiva e emocionante paráfrase do próprio Jason Moran sobre as belas harmonias de Crepuscule With Nellie, estando os brilhantes solos de Jason Yarde e Fayez Virjii em inteira correspondência estética com o original de Monk, apenas citado na exposição final.
 
Acabava assim, em palco, um concerto grandioso, marcado a um tempo pela emoção e pela razão. Mas a festa, essa prosseguiria e extravasaria para fora dele, sob uma fortíssima standing ovation por todo o público e com os músicos a fazerem ecoar a sua música pelas coxias do auditório e pelas escadas e átrios interiores do próprio edifício.
                
Um momento inesquecível! 
                                                           

 
  
Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 10:48
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Concertos com dedicatória (1)

Não podia ter sido mais feliz a pura coincidência de, em dois dias seguidos, numa mesma cidade  (o Porto)  e numa mesma sala de espectáculos  (a Casa da Música), se terem realizado dois concertos (1) que constituíram outras tantas exaltantes dedicatórias a músicos ou períodos de referência na história do jazz.
 
Não menos interessante foi ainda a circunstância de ambos os concertos terem procurado inscrever-se, seguindo embora estratégias diversas, num esforço de identificação e ao mesmo tempo distanciamento quanto ao(s) objecto(s) das homenagens:  Charlie Parker, o seu génio e a música que girou à sua volta e para além dele;  e Thelonius Monk, a sua singular modernidade e a espantosa evocação de um concerto que fez história no seu percurso criativo.
 
Que um dos dois principais responsáveis destes relevantes eventos tenha sido um dos nossos melhores criadores e instrumentistas de jazz  – ombreando, separado por 24 horas, com um músico norte-americano hoje decisivo nas mudanças qualitativas do jazz actual –  é o bom sinal de um tempo português que, pelo menos nesta área, teima em não andar para trás, passados que estão 34 anos depois de Abril.
_________________________________________
                                                                    
 
Bebop, Bird & Beyond
Bernardo Sassetti (piano), Perico Sambeat (sax-alto,flauta), André Fernandes (guitarra), Paco Charlin (contrabaixo), Alexandre Frazão (bateria)
Casa da Música, 28.04.08, 22 horas, Sala Suggia

Fotos: cortesia Casa da Música e © João Messias
 
Gerindo e diversificando com sabedoria e talento os últimos anos de uma carreira repleta de êxitos e de incondicional aceitação por parte do público, na materialização de projectos concertísticos, discográficos e audiovisuais de índole muito diversa, Bernardo Sassetti propunha-nos, à partida para este seu último concerto, algo à primeira vista surpreendente:  o regresso à música que foi o «caldo de cultura» essencial da sua formação jazzística. Quem o conhece bem e sabe da sua aposta num caminho de inovação e não conformismo, percebia entretanto que Sassetti só se proporia fazê-lo ao rejeitar um mimetismo formal que se limitasse a decalcar esses passos essenciais do arranque do jazz moderno. Como não poderia deixar de ser, foi isso mesmo que parte substancial da actuação do pianista e seus companheiros de palco veio a confirmar.
 
Tudo logo se tornou mais claro na peça inicial da noite: uma muito original composição extensiva do próprio Sassetti dividida em várias secções e que, sucedendo-se a uma magnífica improvisação livre em solo absoluto, no fundo invocava o Bird  (designadamente pela imperceptível inclusão – nas secções quase-parafrásicas, vertidas em partitura – de pequenos estilhaços e brevíssimas referências temáticas ligadas ao homenageado)  mas dele logo se afastava através da exposição de um tema central para-serial, a cargo do sax-alto, guitarra e piano  (em uníssono)  que, no dizer do próprio pianista, seria ainda uma vénia às aventuras libertárias de Ornette Coleman mas que, aos meus ouvidos, terão também soado aos hinos calorosos de um Albert Ayler ou à controlada modernidade das composições de um Andrew Hill.
                                               
 
Mais tarde, um outro original do pianista português  – Organic Clown –  tinha agora como longínquo ponto de partida a música de Charles Mingus, outro dos mestres invocados. Mas a provar a recusa de Sassetti em «grudar-se» de forma seguidista aos modelos originais  (neste caso o álbum The Clown, gravado em 1957 por Mingus), aquilo que me pareceu mais presente nesta peça foi a influência indirecta, na sua configuração final, das recentes incursões do compositor pela música para o cinema.
 
Se, em termos composicionais, foram estes os dois momentos mais transparentes dos propósitos de inconformismo e de criatividade por parte de Bernardo Sassetti, já em termos de improvisação as suas notáveis qualidades e as dos seus convidados terão sido postas mais à prova em outros momentos do concerto, quiçá menos afastados da matriz das peças citadas e porventura mais exigentes no plano solístico, pela induzida vontade de não cair na tentação das fórmulas gastas.
 
Neste âmbito, Perico Sambeat confirmou, mais uma vez, o fabuloso fogo sonoro e poder emocional que sempre coloca no seu modo de improvisar mas não deixou de evidenciar, noutros cambiantes tímbricos e expressivos, um espectro muito alargado de abordagens estéticas:  desde o classicismo formal insinuado em Goodbye Pork Pie Hat até ao politonalismo introduzido em Raise Four, passando pela tranquila e subtil intemporalidade desse momento único: o dueto com Sassetti, em Yesterdays.
 
Quanto a André Fernandes, o talentoso guitarrista confirmou méritos sobejamente conhecidos numa polivalência que evoluía e se expressava consoante a temática abordada:  clássico e swingante em Raise Four, intenso e afunkalhado em Bemsha Swing e, em geral, funcionando como uma componente tímbrica e harmónica essenciais a este projecto.
                              
Enfim, esta homenagem de Bernardo Sassetti a um período de grande criatividade na história do jazz, esteve à altura do que dele se esperaria e constituiu um belo aperitivo para as venturas que se seguiriam...                                                                                             
(continua...)
                   
(1)  Integrados no ciclo Música e Revolução Músicas que Revolucionaram a Música
                                

 
Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 10:47
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Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

Maio, maduro Maio...

 

 

          Ilustração de Walter Crane (1845/1915)

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 10:15
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